22 de setembro de 2008

Azar no amor, sorte na gramática

Estive reparando naquela música do Martinho da Vila, na qual ele diz que já teve mulheres do tipo atrevida, do tipo acanhada, do tipo vivida, casada carente, solteira feliz. Que já teve donzela e até meretriz.

Fora mais um monte delas, que não vou lembrar agora, mas o sujeito teve mulher pra burro.

Fiquei então tentando classificar as que já passaram pela minha vida, que não foram tantas assim. O curioso é que a única forma de classificação que encontrei foi a gramatical.

Por exemplo: tive uma fulana que usava metáforas como ninguém. Dizia sempre coisas do tipo "Nosso relacionamento é um lixo"; "Você é um cachorro"; "Eu sou mesmo uma palhaça". E por fim: "Eu nunca mais vou engolir as suas grosserias".

Foi um relacionamento rápido, passou como um raio. Ela era uma pessoa difícil, mas ainda sinto saudades das suas metáforas.

Uma outra era fissurada em anáforas. Gritava amiúde: "Sou eu que te ligo, eu que te procuro, eu que te abraço, eu que tenho que me de eu que tenho que me desculpar!". Ou então: "Que saco, você só reclama! É a porcaria do seu emprego, a porcaria do seu carro, a porcaria do seu time, a porcaria do trânsito...".

Terminou mais ou menos com ela me dizendo assim: "Não quero mais seu abraço, não quero mais suas desculpas, não quero mais sua estupidez, não quero mais seu mau humor e não quero mais você".

Ah, ela tinha belos olhos, bela boca, belas pernas e belas anáforas.

Fui apaixonadíssimo por uma beltrana que tinha um dom especial com antíteses. Não sei se eu gostava mais dela ou de suas esplêndidas antíteses. Quando ela disse "Eu só te odeio porque você me ama", eu quase a pedi em casamento. Quase fui à loucura quando ela sentenciou: "Eu dou muita risada quando você chora".

Ela era admirável. Pena que tenho certeza de que quanto mais eu me lembro dela, mais ela se esquece de mim.

Já Susângela era totalmente sinestésica. Eu vibrava com suas sinestesias poéticas. "Seu perfume tem cheiro azedo";
Sinto um torpor negro toda vez que você chega"; "Meu amor por você nada mais é do que pálido".

Era uma poetisa, a Susângela. Sinto uma saudade amarga de suas sinestesias.

Passei um tempinho com uma ruiva, toda serelepe, que usava hipérboles maravilhosas, geniais. Quando eu me atrasava, por exemplo: "Estou te esperando há um século"; Quando eu estava no bar: "Te procurei pela cidade toda, seu cafajeste"; Quando eu esqueci do seu aniversário: "Não quero mais você. Nem que você seja o último homem do universo!".

Uma garota muito instável, mas era a ruivinha mais bonita do mundo.

A última era uma profissional em utilizar gradações. As frases soavam fortes, viscerais. Ela berrava gradações e eu ficava só ouvindo, encantado. "Você é um fraco, estúpido, grosso, infantil, ignorante, insensível e não me merece!". Vejam só a construção maravilhosa que ela utilizou para colocar um ponto final na nossa relação: "No começo eu gostei de você, me interessei, te admirei, me envolvi, me apaixonei e me entreguei,mas depois percebi que eu tinha sido uma tonta, uma criança, inocente, boba, cega, porque você não passa de um mentiroso, de um hipócrita, um cafajeste, um animal!".

Puxa, ela deveria escrever um livro, uma tese, uma enciclopédia! Grandes gradações ela fazia.

Com algumas tentei reatar, enviando cartas cheias de smacks e snifs, mas nenhuma deu a menor importância para as minhas onomatopéias.


Analfabetas! Insensíveis!